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terça-feira, 15 de julho de 2014

O limite das redes sociais – conexão não é comunicação

Quando nos anos 70 ainda não existiam gurus no mundo dos negócios Herbert Simon, brilhante pensador de organizações, escreveu que a racionalidade é limitada, frustrando os que supunham que o homem pudesse, a luz do cérebro desenvolvido, dar conta de múltiplas operações cognitivas, simbólicas e afetivas. Ouvimos, enxergamos e pensamos limitadamente – eis o fato escancarado por Simon! Na verdade, ele abrira caminho para outro pensador surfar nas ondas do limite humano, o americano Malcolm Gladwell, autor de “O Ponto da Virada”, sujeito grifado no mercado editorial da literatura de negócios.

Gladwel revela alguns achados. Por exemplo, que o homem pode identificar apenas seis tipos diferentes de som ao mesmo tempo – além disso, a percepção embaralha. O mesmo vale para a visão, olfato e audição, artefatos limitados da raça. Ou seja, não vemos, cheiramos e ouvimos tudo aquilo que supomos. Essas são restrições naturais dos humanos, aquilo que a psicologia cognitiva apontou como capacidade de canal. Nessa linha, uma das explicações oferecidas é que o homem e os primatas possuem uma parte do cérebro (neocórtex) com tamanho maior do que de outros mamíferos. O estudo concluiu que isso se deve ao tamanho dos grupos.

Os antropólogos teriam inferido que existe um número simbólico de 150 relações que um indivídulo pode dar conta, o que limita, por exemplo, a capacidade de cultivar amigos. No máximo poderíamos tecer, cuidar e alimentar até 15 amizades. Mais do que isso, haverá uma sobrecarga que o cérebro, coitado, não tem competência para gerir. Assim, se alguém pertence a um grupo de 15 amigos terá de gerenciar relacionamentos com 14 deles, sem falar nas 190 conexões derivadas dessa rede. Segundo o estudo, isso é incompatível com o tamanho do cérebro. O máximo que se pode gerenciar são 150 relacionamentos – fruto das tais 15 amizades. A propósito, antropólogos apontam que os membros de tribos caçadoras primitivas de várias regiões do mundo chegam próximo a 150 ingtegrantes e que o total de soldados numa unidade militar fica nesse parâmetro também... há séculos.

Os dados revelados por Gladwell definitivamente não são uma boa notícia para o mundo em que vivemos, marcado por gigantescas redes de contatos, em especial para a turma da geração Y, hoje na faixa dos 25 anos. Ao navegar nas redes sociais como o orkut, facebook, linkedin e twitter frequentemente deparamos com gente que ostenta com orgulho as cifras de suas conexões: 200, 300, 400, até 600 contatos.

Mas, afinal, o que pode explicar o limite de uma rede social desse porte? Eu não sei o que Gladwell responderia, mas imagino que uma das explicações aceitáveis deriva de um fato simples: conexão não é comunicação. Conexão tem relação com velocidade, instantaneidade, multiplicidade. Já comunicação entre indivíduos pertence ao continente da arte, pois exige tempo, contato face-a-face, profundidade, escuta, atenção, relação, percepção. Enquanto a conexão remete ao universo infinito e virtual, a comunicação nos convida a um olhar e estar - aqui e agora - no vasto território do outro. A comunicação é arte lenta e pressupõe ouvir mais do que falar, processar informações, selecionar significados, atribuir valor, eleger caminhos. Conexão exige acesso, comunicação é processo. Portanto, caro leitor, se você tem mais de 150 conexões, abra os olhos. Você pode estar vencendo a batalha da conectividade, mas, definitivamente, a qualidade única e original do ser comunicativo que lhe habita empobrece... velozmente.

Artigo editado no Jornal Zero Hora de Porto Alegre por Marcello Vernet de Beltrand

Jornalista, Mestre em Administração e sócio da Wiker Comunicação

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